Reganho de peso após interromper semaglutida e tirzepatida: o que os estudos mostram
A semaglutida e a tirzepatida mudaram o tratamento da obesidade ao promover perdas de peso expressivas em ensaios clínicos. Mas uma questão importante permanece: o que acontece depois da interrupção dessas medicações?
De acordo com a revisão sistemática analisada, o reganho de peso após a suspensão tanto da semaglutida quanto da tirzepatida é uma preocupação real e relevante. Os principais estudos incluídos indicam que, aproximadamente um ano após a interrupção, os pacientes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido durante o tratamento.
Por que o reganho de peso após a interrupção preocupa?
A revisão destaca que a obesidade deve ser encarada como uma condição crônica. Isso significa que manter a perda de peso no longo prazo continua sendo um desafio, mesmo com medicamentos altamente eficazes.
Segundo o artigo, além do aumento do peso após a interrupção do tratamento, também houve reversão de benefícios cardiometabólicos observados durante o uso das medicações, como melhora em circunferência da cintura, pressão arterial, lipídios e controle glicêmico.
O que a revisão sistemática avaliou?
O objetivo da revisão foi comparar o reganho de peso corporal e fatores associados após a descontinuação da semaglutida e da tirzepatida em adultos com sobrepeso ou obesidade.
A busca foi realizada exclusivamente no PubMed e incluiu estudos publicados entre maio de 2015 e maio de 2025. Foram selecionados ensaios clínicos randomizados e extensões de ensaios que apresentassem dados quantitativos sobre o período pós-interrupção do tratamento. Ao final, três estudos foram considerados centrais para a análise:
- STEP 1 extension
- STEP 4
- SURMOUNT-4
Semaglutida: o que aconteceu após a interrupção?
Nos estudos com semaglutida 2,4 mg, os resultados mostraram um padrão consistente de recuperação de peso após a suspensão.
No STEP 1 extension, participantes que haviam usado semaglutida por 68 semanas tiveram perda média inicial de 17,3%. Após a interrupção, recuperaram em média 11,6 pontos percentuais ao longo de 52 semanas, o que corresponde a aproximadamente 67% do peso perdido.
No STEP 4, após uma fase inicial de 20 semanas com perda média de 10,6%, o grupo que foi trocado para placebo apresentou reganho médio de 6,9% do peso corporal nas 48 semanas seguintes. Isso representa aproximadamente 65% do peso perdido na fase inicial.
Tirzepatida: o que os dados indicam?
No estudo SURMOUNT-4, os participantes receberam tirzepatida por 36 semanas e alcançaram perda média de 20,9% do peso corporal.
Depois da mudança para placebo, houve reganho médio de 14,0% do peso corporal ao longo de 52 semanas. Esse valor equivale a aproximadamente 67% do peso perdido durante a fase de tratamento ativo.
A revisão também destaca que apenas 16,6% dos participantes que passaram para placebo mantiveram pelo menos 80% da perda de peso inicial, enquanto entre aqueles que continuaram com tirzepatida esse percentual foi de 89,5%.
Semaglutida e tirzepatida: existe diferença no reganho de peso?
De acordo com a discussão comparativa da revisão, o padrão de reganho foi notavelmente semelhante entre os dois medicamentos.
Apesar de a tirzepatida ter produzido uma perda de peso inicial maior, ambos os tratamentos mostraram recuperação de aproximadamente 65% a 67% do peso perdido no período de cerca de um ano após a interrupção. Em outras palavras, a diferença principal esteve na magnitude da perda inicial, e não em um comportamento totalmente diferente do reganho após a suspensão.
O que esses resultados reforçam sobre o tratamento da obesidade?
A principal mensagem da revisão é clara: a obesidade precisa ser tratada como uma doença crônica, que frequentemente exige manejo contínuo para manutenção dos resultados.
O artigo sugere que a continuidade do tratamento, ou a adoção de estratégias eficazes de manutenção a longo prazo, pode ser necessária para preservar tanto a perda de peso quanto os benefícios metabólicos alcançados durante o uso da semaglutida e da tirzepatida.
Quais foram as limitações da revisão?
A própria revisão aponta algumas limitações importantes:
A busca foi restrita ao PubMed, o que pode ter deixado estudos relevantes de fora. Além disso, o número de estudos robustos que avaliaram diretamente o período pós-interrupção ainda é limitado, especialmente no caso da tirzepatida. Outro ponto destacado é que os estudos incluídos focaram em populações sem diabetes, o que pode limitar a generalização dos resultados para outros perfis de pacientes.
A revisão sistemática mostra que a interrupção da semaglutida 2,4 mg ou da tirzepatida está associada a reganho substancial de peso em adultos com sobrepeso ou obesidade. Em ambos os casos, cerca de dois terços do peso perdido foram recuperados no primeiro ano após a suspensão do tratamento.
Além disso, esse reganho foi acompanhado pela atenuação dos benefícios cardiometabólicos obtidos durante o uso das medicações. No conjunto, os achados reforçam a necessidade de olhar para a obesidade como uma condição crônica, que demanda estratégias de cuidado e manutenção no longo prazo.